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A “colite”

António Curado

Tipicamente o doente, acabado de sentar à nossa frente, conta-nos que sofre da “barriga” desde há anos, com mal-estar, por vezes cólicas, muitos gases e mau funcionamento do intestino. “Tudo me faz mal” e “tenho muitos amargos de boca”. Por vezes reconhece que também tem muitos “nervos”.

Outras vezes conta que em tempos já lhe diagnosticaram uma colite (talvez até refira que era/é uma “colite seca” ou uma “colite húmida” e há até quem faça referência ao diagnóstico duma “tri-colite”…). Também se referem, por vezes, à vesícula preguiçosa.

A Sra. X diz, com muita graça, que a sua colite tem um namoro antigo com a vesícula.

A Sra. Y conta: “Sempre tive problemas de intestinos… Depois comecei a fazer termas e melhorei. Mas há 15 dias, nas termas, o serviço de mesa era tão mau, tau mau, só carne de porco, que comecei a sentir-me inchada, dilatada… Tenho muito ar, sinto-me a ficar opada. Sinto-me mal… Quando como pioro. Ora tenho prisão de ventre ora tenho diarreia.” E acrescenta: “Tive uma depressão e não estou assim famosa…”

Figuras ilustres terão sofrido de colite.

Florbela Espanca terá sido uma delas. Em 1923, após publicação do livro “Soror Saudade”, o Dr. Mário Lage diagnostica-lhe uma colite. Florbela por essa altura junta-se a Mário Lage, comunicando à família o seu segundo fracasso matrimonial, o que será muito mal aceite, mesmo pelo irmão, constituindo mais uma dor para a poetisa.

Também Teixeira de Pascoaes sofreu de colite, “uma colite que o há-de atormentar por vários anos, condenando-o à escravidão de uma dieta rigorosa: bife raspado grelhado e arroz branco. O cigarro e o café (café e pão-de-ló) eram a sua fonte de energia. Faz tratamento nas termas de Caldelas, donde escreve a Cacilda de Castro: “Estou em Caldelas, a tratar da minha saúde. (…) A dor física é, muitas vezes, uma simples lembrança da moral. O corpo é a própria alma tornando-se existente e a alma é o corpo a tornar-se inexistente. Quem chora para dentro, queima as entranhas (…)”[1].

Alfred Hitchcock também terá tido esse diagnóstico, ainda que tenhamos que ter presente que há outras formas de colite que não a “colite nervosa” ou cólon irritável (“as a result of a bad reaction to the antibiotics he was given, he got colitis” refere John Russell Taylor na sua biografia)[2].

E também no cinema, refere-se na biografia de Montegomery Clift: “By 1950 he was troubled with allergies and colitis (the army had rejected him in WWII for chronic diarrhea…)”.

Na literatura romanesca podem encontrar-se referências várias à colite:

- John Leslie em “Blue Moon”[3]: "... illness before, I begin to envision the end. But half an hour later, Doc Russell laughs, and says, "Bud, you got colitis. Get off the spicy foods. I'm going to put you on a diet, and in a week you'll be good ..."

- Nanna de Castro em “Vestido Azul”: “A verdade é que enquanto Ana Célia florescia, Camilo definhava. Passou a ligar mais vezes para a casa e se topava com o telefone ocupado tinha crises imediatas de colite”.

- Loriano Macchiavelli em I sotterranei di Bologna[4]: “Sarti Antonio souffre. Il n’est pas bien. Ça lui arrive chaque fois qu’il a un problème et ça dure jusqu’à ce qu’il le résolve. C’est de cette façon que lui est venue sa colite spastique d’origine nerveuse. A cause de tous ces problèmes qu’il n’a jamais résolus, qui se sont accumulés au fil des années et sont restés dans sa conscience en attente d’une solution ».

Num livro que li na minha juventude (“O livro de San Michele[5]”) e que, aliás, ajudou a formar a minha vocação, Axel Munthe, médico sueco, conta episódios do seu exercício clínico em Paris, na década de 20, e do grande êxito que teve na sociedade parisiense com o diagnóstico da colite, numa altura em que era moda o diagnóstico da apendicite crónica e da consequente apendicectomia.

“Um dos meus últimos casos de apendicite creio que foi o da condessa X, que veio consultar-me recomendada por Charcot, segundo ela dizia. (…)

- Tudo suportarei. Já tenho sofrido tanto!...Não tenha receio, que não volto a chorar. Que tenho eu?!

- Colite.

(…)

- Colite! É exactamente o que eu sempre julguei. Estou certa de que o doutor tem razão. Colite! Diga-me: o que é a colite?

Desejaria bem evitar aquela pergunta, porque nem eu próprio o sabia, como, aliás, ninguém. Disse-lhe que duraria muito e que era difícil de curar, e nisto tinha razão.”

A jovem condessa, com cerca de 25 anos (Monsieur le Comte era mais velho) escreveu então a uma amiga:

Querida Ana: Imagina que tenho colite. Estou contentíssima… contentíssima por me teres recomendado esse médico sueco – ou terá sido Charcot? Seja quem for, eu disse que tinha sido Charcot, para ter a certeza de que me dedicaria mais tempo e mais atenção. Tens razão, é muito inteligente, ainda que o não pareça. Tenho-o recomendado a todos os meus amigos, e convenço-me de que poderia fazer muito por minha cunhada, que continua sem poder erguer-se da cama, por causa da queda que deu no cotillon; estou certa de que tem colite.”

Mais à frente escreve Axel Munthe ter aceite o convite para cear no palácio da condessa, no Faubourg Saint-Germain:

“Reunimo-nos com as senhoras no salão. Fizeram-me sentar ao lado da venerável marquesa para a consulta não oficial, tão habilmente preparada pela condessa. Depois doutra tentativa para começar uma nova conversa, gritei-lhe pela corneta acústica que ainda não tinha colite, mas que tinha a certeza de que não tardaria em tê-la se não se privasse do seu paté de foie.”

(…)

“Fizera a minha entrada na sociedade parisiense.

A colite espalhara-se como fogo devorador por todo o Paris. Não tardou que a minha sala de espera estivesse tão cheia de gente que a casa de jantar passou a sala de espera suplementar.”

Efectivamente o diagnóstico de colite terá constituído, nessa altura, uma verdadeira moda. Joffre M. de Rezende[6], autor brasileiro, chamou a atenção para isso, dando a colite como um dos muitos exemplos do que chamou o modismo em Medicina:

“Há doenças que constituem verdadeiros modismos e, tanto o médico se vale do diagnóstico fácil que se encontra na moda, como o doente aceita com tranquilidade o rótulo que o médico lhe oferece. Tal é o caso por exemplo, da colite, termo vago e de natureza imprecisa, muito utilizado no passado para designar os casos de padecimentos abdominais de qualquer natureza.

Axel Munthe, no seu extraordinário Livro de San Michele" nos conta como era bem aceito o diagnóstico de "colite" pela clientela das grandes capitais europeias - uma doença compatível com uma longa vida e que garantia ao seu portador o direito de reivindicar maior atenção. Muitos dos casos então rotulados de "colite" correspondem ao que passou a ser designado por colo irritável, colo espástico, neurose cólica, ou mais recentemente, intestino irritável.

A descoberta da responsabilidade do apêndice nos processos supurativos da fossa ilíaca direita, rotulados até então de "peritiflite", despertou no início do século XX um súbito interesse pela remoção do apêndice, fazendo surgir a discutida entidade da "apendicite crónica" como causa de todos os males, impondo a apendicectomia sistemática em todo paciente com queixas abdominais.

Depois que os termos em "ite" se restringiram aos processos inflamatórios bem definidos do ponto de vista anatomopatológico, surgiu a ideia dos distúrbios funcionais de natureza motora e secretora para explicar os quadros clínicos mal definidos. O conceito das discinesias ganhou nova dimensão e a vesícula hipocinética, popularmente chamada de "vesícula preguiçosa", passou a ser a bengala de apoio dos hipocondríacos e a figurar nas conversas elegantes dos acontecimento sociais.”

Felizmente que nos nosso tempos o diagnóstico do cólon irritável ou síndrome de intestino irritável está agora bem definido (critérios de Roma), havendo muitos estudos comprovando a sua efectiva elevada prevalência na comunidade (10 a 15% na população adulta), não dependendo o seu diagnóstico de qualquer tipo de moda.



[1] Maximiano Simões. Homenagem, no cinquentenário da morte de Teixeira de Pascoaes. In http://www.esec-francisco-holanda.rcts.pt/publicacoes/encontro_28/pascoais/pascoais.htm

[2] John Russel Taylor. Hitch: The life and times of Alfred Hitchcock. Faber abd Faber. Londres, 1978.

[3] John Leslie. Blue Moon – A Gideon lowry mistery. Pocket Books, Simon & Schuster Inc, New York, 1998.

[4] Loriano Macchiavelli. Le souterrain de Bologne, traduzido do italiano por Laurent Lombard. Ed. Métailié.

[5] Axel Munthe. O Livro de San Michele, traduzido por Jaime Cortesão. XIV edição. Colecção Dois Mundos, Ed. «Livros do Brasil», Lisboa.

[6] Joffre M. de Rezende. Vertentes da Medicina. São Paulo. Ed. Giordano, 2001.

 

 

 

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FIGADAIS

 

 

 

 

Os franceses vivem em litígio com seu fígado. O que fazem com o fígado do ganso, que não tem nada a ver com essa rixa antiga, é uma forma de vingança. Eles gostariam de engordar o próprio fígado à força, como fazem com o do ganso, depois extirpá-lo, atirá-lo sobre uma mesa com um grito de 'Salaud!', transformá-lo em patê e comê-lo triunfalmente com torradinhas. Como não podem fazer isto sem arriscar a vida, comem o fígado do ganso e tratam o próprio fígado com desconfiança e água mineral.

No Brasil também sobrevivem alguns mal-entendidos com relação ao fígado, se bem que menos selvagens. O que talvez explique por que nosso patê é inferior. Também atribuímos ao fígado mal-estares que deviam ser atribuídos a outros órgãos, inclusive do governo. E vivemos apalpando a barriga, como que testando os humores do nosso fígado. Invariavelmente, do lado errado.

O fígado é um incompreendido. Não é creditado por metade das coisas boas que faz por nós. E é culpado por coisas das quais é inocente como um apêndice. É um órgão sofisticado. O aristocrata das entranhas. Ao contrário do coração, chamado de 'órgão nobre' mas que não passa de uma bomba glorificada. O coração pode ser substituído por um simples aparelho hidráulico. Já nada feito pelo homem iguala o fígado em sabedoria e engenhosidade. Ele é um químico avançado, senhor de sucos e misturas. Age em concreto com os outros órgãos -ao contrário do coração, que faz o seu serviço e não quer nem saber. E no entanto dizemos que os melhores sentimentos são “de coração” enquanto atribuímos ao fígado rabugice e sentimentos menores. Injustiça, injustiça.

Atribui-se ao fígado um moralismo intransigente. Seria um estraga prazeres, a representação viva da consciência repressora. Ele nos mandaria repetidos avisos contra a bebida e outros excessos e nos mataria sem piedade quando insistíssemos neles. Mais uma vez, ele é inocente. A não ser nos casos de cirrose mais óbvia, poucas reacções do organismo às nossas extravagâncias partem directamente do fígado.

Ele fica lá, trabalhando dobrado por nós e tentando ajeitar as coisas enquanto os ácidos fervem, o estômago se revolta e a disposição geral dos outros órgãos parece ser a de nos liquidar na hora. O fígado está do nosso lado. Direito, para ser mais específico. Só em último caso desiste de nós. E mesmo então é com boa intenção: nos ensinar as virtudes da moderação. Ou pelo menos a mudar de fornecedor .

Foi durante uma ressaca que tive a revelação. Mal tinha acordado na manhã seguinte e tentava localizar minha cabeça quando ouvi uma voz que dizia:

-Precisamos conversar.

Era ele. Não tinha saído para apressar o processo e me matar com as próprias mãos. Disse que não tinha nada a ver com a minha ressaca e que era sobre aquilo que queria

conversar.

-Fala- disse eu.

-O fato do seu fígado estar falando com você não o surpreende? .

-Não. Há uma explicação perfeitamente lógica para isso.

. -Qual é?

-Eu estou delirando. Continue.

-Você precisa tomar jeito.

-Eu sabia. Lá vem sermão. Você é metido, opiniático, chato...

-E você é anti-hepático.

-Por favor, trocadilho não.

-E está sendo injusto. Eu tento ajudar, mas a revolta contra você, lá dentro, é enorme. O jantar de ontem, por exemplo. O licor de ovo depois de todo aquele vinho, e do conhaque... foi muito mal recebido.

-O que eu podia fazer? Vomitar na mesa? Era um jantar informal, mas não tanto. E, mesmo, tomei o licor para assentar o estômago.

-O estômago manda dizer 'obrigado', mas não funcionou. Tentámos entrar em contacto com seu cérebro.

-E daí'?

-Atendeu alguém com voz de bêbado que disse que o expediente só reabria na segunda. Queriam matar você. Eu é que pedi moderação. Não foi fácil convencê-los. A vesícula queria me apedrejar. O intestino grosso gritava palavrões.

-Obrigado, fígado. Eu tinha uma ideia diferente de você.

-Na verdade eu sou o órgão mais tolerante e amável de todos, só que isso nunca foi reconhecido.

-Puxa, fígado. Você tem, tem...

-Tem o quê?

-Bom coração.

-Tá vendo?

 

 

 

Luís Fernando Veríssimo, in Público 27 de Abril de 1997

 

 

 

 

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BOCA AMARGA

 

Não se pode mais sofrer do fígado como antigamente. Querem mudar as regras do jogo.

Durante anos ouvi minha mãe queixar-se de incurável boca amarga, naturalmente devido ao fígado, ou, por questão de vizinhança, à vesícula. Como ela sabia? Aprendeu com minha avó que aprendeu com sua mãe. O fel do fígado se combate com o amargo da erva. Por isso, mantinha, junto ao filtro d´água, uma infusão de boldo ou losna para ser tomada aos goles, durante dias ou semanas. Podia não curar, pois fígado é assim mesmo, mas melhorava inevitavelmente. Muito lógico!

E minha tia? Tão nova e tão entupida. O intestino funcionava mal, mas tudo se resolvia, pelo menos temporariamente, com um colagogo indicado por farmacêutico formado: epagogo ou eparema. Coisa estranha essa palavra colagogo. Cola e gogo. A cola deve ser por causa da bile viscosa e colante que a gente vomita na crise de fígado. O gogo ninguém me explica. O caso é que o remédio resolve o problema. Quer prova maior do que essa, de que se o fígado ou a bile vão bem, os intestinos também irão?
Meu pai, coitado, era censurado por tomar seu aperitivo na hora do esperado almoço do domingo, pois o castigo por tal prazer seria uma enorme dor de cabeça e má digestão. Dor de cabeça de fígado, bem entendido. Prova disso é que só melhorava quando se deitava em quarto escuro, depois de deixar-se aplicar uma necroton ou xantinon ou acrosin, todos tradicionais e sagrados antitóxicos do fígado. Nada como um antitóxico para perdoar esses pecadilhos da mesa domingueira.

Enfim, qualquer família podia sofrer do fígado, de pai para filho, desde 1822, sem que isso causasse sobressaltos às vítimas. Tão importante quanto ter um viçoso pé de guiné para proteger as finanças domésticas, era manter cuidadosamente um pé de boldo ou losna ou jurubeba para as urgências hepáticas.

Agora dizem que não é mais assim.Tudo funciona separado. Doença do fígado é vírus. Doença do intestino chama-se colo irritável. Vômito é refluxo.

Enquanto estou na sala de espera, centenas de folhetos ficam à disposição, revelando minhas verdadeiras doenças. Dividiram minha barriga em duas partes: do umbigo para cima tenho refluxo, do umbigo para baixo colo irritável. Com direito à endoscopia em ambos os andares.

Mas, se eu me queixar do fígado, como sempre fez minha família, o doutor vai me pedir exame para o vírus C e me presentear com uma das alternativas, hepatite, cirrose ou câncer. É o que diz o folheto. Radicalizaram. Então, do fígado não me queixo mais, e vou escamoteando meus sintomas.

Quando fui à consulta, resolvi optar pela doença mais simples e menos perigosa e entrei logo no assunto.

– Tenho refluxo.

– Quem fez o diagnóstico?

– Eu mesmo, conforme as informações do folheto aí na sala.

– O senhor não pode fazer diagnóstico com tudo que lê. Isso não é assim – bronqueou o doutor.

– Quer dizer que o folheto está passando informações erradas?

– Não. O senhor faz as queixas e eu o diagnóstico.

– Então pra que o folheto com o nome da doença, instruindo as queixas e o diagnóstico?

– Vou explicar.

Não explicou porque não tinha tempo, mas me deu uma segunda chance, apesar disso. Aproveitei.

– Na verdade, doutor, eu sofro do fígado.

– O senhor tem hepatite C ou B?

Calei-me. Se minha mulher viesse comigo, ou melhor, minha mãe, eu não teria sido tão desconsiderado. Desinteressei-me da consulta devido ao desacordo entre o doutor e eu. Saí pior do que entrei.

E agora? Quem vai cuidar da minha boca amarga, do verde que me colore a pele quando vomito bile e derreto o fígado?

 

 

Heitor Rosa


Nasceu em Urutai(GO) e resideem Goiânia. Médico, professor titular de Gastroenterologia na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás. Residiu alguns anos na Europa (Londres e Paris), onde fez pós-graduação. Foi colunista do Jornal da Associação Médica Brasileira (SP), para o qual escrevia crônicas sobre a vida universitária. Seu primeiro livro foi Histórias agudas e crônicas: do apêndice ao avião (1996). A seguir publicou Os ossos do coronel Azambuja e outras mentiras (1997), pela editora Fábrica do Livro, com prefácio de Moacyr Scliar. Em 2000 publicou O enigma da Quinta Sinfonia, pela editora Escrituras. No prelo, pela Prêmio Editorial, encontra-se o último livro Memórias de um cirurgião-barbeiro.

 



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